sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O “Terrorismo midiático” e a tentativa de criminalizar os movimentos sociais

O mundo viveu uma onda de legislação anti-terrorista após os atentados de 11 de setembro. Países passaram a aprovar legislações duras, flexibilizando direitos, criando noções bastante amplas do que vem a ser terrorismo. A justificativa da luta contra o terrorismo deixou o mundo hoje um lugar menos livre. Centros de tortura espalhados por diversos países, grampos generalizados e  perseguições a adversários políticos.


O projeto prestes a ser votado no Senado não combate o terrorismo de forma  eficiente, mas são muito úteis para perseguir adversários políticos e principalmente criminalizar os movimentos sociais e reprimir  manifestações em ano de copa do mundo.

A mídia descaradamente manipula o sofrimento causado pela morte do jornalista Santiago. Por que não se deu o mesmo destaque as outras onze mortes que aconteceram anteriormente ?  A resposta é simples.  Santiago era o corpo que faltava para se criar o verdadeiro clima de “terrorismo”,  ele sim incitado pela grande mídia, por políticos governistas  ávidos pela criação de lei mais duras para reprimir as manifestações em ano de Copa do Mundo.  Cai como uma luva também para a oposição de direita, sempre adepta a repressão policial e a criminalização dos movimentos sociais.

A história contada pela mídia, carece de veracidade, quando confrontada com uma análise isenta do que ela nos tem apresentado. O esforço do especialista, na Globo, tentando mostrar que  o negro e magro Caio de cabelo curto era o mesmo apresentado numa foto em que o pretenso “autor” era branco, e   tinha cabelos bem maiores que o acusado.           

Enfim o rojão pode ter vindo sim de um manifestante, mas o que a mídia e a polícia carioca fazem é puro “Terrorismo midiático”. Na verdade era contra os abusos cometidos pela mídia que nós deveríamos criar leis. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Quem ganha e quem perde com o lucro dos bancos

Duas notícias quase simultâneas forneceram uma boa fotografia do que o Brasil se tornou. Na primeira, descobrimos, o lucro líquido do Itaú em 2013 alcançou os 15,7 bilhões de reais, o maior da história dos bancos brasileiros, segundo estudo da consultoria Economática. Enquanto isso, o Bradesco apresentava o segundo maior lucro do ano, 12 bilhões de reais. Apenas duas instituições financeiras embolsaram quase 28 bilhões de reais, isto em uma economia de crescimento estagnado. Na segunda 3, a outra informação: a produção industrial caíra 3,5% em dezembro em comparação a novembro, a maior retração em cinco anos.


Diante desses dados, é difícil não lembrar de uma bela frase do presidente da Islândia, Olafur Grimsson: "Uma economia com bancos muito fortes é sinal de um país que vai mal". Não só pelo fato de uma nação atrativa para investimento especulativo, no qual aplicar dinheiro em cassinos travestidos é o melhor negócio, nunca conseguirá financiar o desenvolvimento da criatividade empreendedora de seu povo. Mas principalmente porque uma economia com bancos fortes destrói tudo à sua volta.

Os bancos drenam os melhores cérebros para o sistema financeiro. Foi assim que os melhores engenheiros do Brasil não foram parar nas universidades a estudar novos materiais, em programas de despoluição de rios ou em pesquisas sobre energia alternativa. Foram fazer contas. O Brasil assim se transformou em um país que forma economistas não para pensar problemas regionais ou desenvolver políticas de combate à pobreza, mas para fazer consultoria para bancos, fundos de investimentos e outros segmentos do mercado financeiro.

Por outro lado, um sistema financeiro forte constrói uma rede escusa de relações e interferência que corroem todos os poderes políticos, entre eles a mídia e os governos. Ao criar uma relação incestuosa na qual antigos integrantes da administração pública sempre passam ao sistema financeiro e vice-versa ou na qual a saúde financeira dos meios de comunicação depende das boas relações com o sistema bancário, as instituições financeiras acabam por controlar o espectro das decisões econômicas. Não por outra razão, o mundo assistiu à impotência dos governos mundiais em desenvolver políticas capazes de quebrar o interesse do sistema financeiro global em prol da defesa de populações vulneráveis em processo irreversível de pauperização. Na verdade, toda e qualquer discussão econômica imbuída de encontrar novos modelos deve partir da reflexão sobre como quebrar a força de intervenção dos bancos, um poder que não mostra sua cara, que opera na calada da noite dos lobbies.

Que um governo dito de esquerda no poder há 12 anos não tenha quebrado o processo de transformação em um paraíso de rentabilidade para o sistema financeiro, com suas taxas de juro de baile da Ilha Fiscal, é algo que só pode provocar indignação. Nem temos um sistema pesado de taxação sobre lucros bancários, o que permitiria ao governo subvencionar melhoras nos serviços públicos tão cobradas pela população nas manifestações dos últimos meses. Até a CPMF, o imposto mais justo que este país teve, por taxar aqueles que realizam o maior número de transações financeiras, foi abandonada, para nunca mais voltar à pauta.

Neste ano eleitoral, no qual a dependência da classe política em relação ao sistema financeiro e às quadrilhas de construtoras aumenta exponencialmente, dificilmente veremos propostas dispostas a controlar esse que é, no fundo, um dos nossos maiores problemas econômicos. Que tais lucros intergalácticos ocorram em plena retração da economia é apenas um sintoma de onde estão aqueles que realmente controlam as decisões deste país. Assim, quando alguém joga uma pedra em agências bancárias, a sua maneira ele acerta o alvo correto. Este poder das sombras, regado a Romanée Conti e a stockoptions milionários, não pode continuar a, de fato, governar o Brasil.



Por: Vladimir Safatle
Carta Capital 

Banco do Brasil tem lucro recorde de R$ 15,8 bilhões


O Banco do Brasil fechou o ano de 2013 com lucro líquido de R$ 15,8 bilhões e bateu novo recorde. Isso representa uma alta de 29,5% em relação a 2012, quando o lucro tinha sido de R$ 12,2 bilhões. 

As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (13) pelo banco, a maior instituição financeira da América Latina por ativos. Com esse resultado, o BB superou o obtido pelo Itaú Unibanco, que registrou lucro líquido de R$ 15,7 bilhões em 2013.

O balanço do BB foi fortemente ajudado pelos ganhos com a venda de ações da BB Seguridade, empresa de seguros, previdência e capitalização do banco. Esse evento teve um impacto de R$ 9,82 bilhões no lucro líquido contábil. Se não fosse por isso, o lucro do BB teria tido queda em relação a 2012.

No ano, a remuneração aos acionistas atingiu R$ 6,3 bilhões, o que equivale a 40% do lucro líquido, sendo R$ 3,3 bilhões na forma de juros sobre capital próprio e R$ 3 bilhões em dividendos.

Lucro do 4º trimestre cai em 2013
No quarto trimestre, o lucro líquido foi de R$ 3,025 bilhões, após ter lucrado R$ 2,704 bilhões no terceiro trimestre. Em relação ao quarto trimestre de 2012, o lucro caiu 23,2%.

Queda dos calotes
O número de dívidas em atraso ficou abaixo da média nacional no ano passado. As dívidas vencidas há mais de 90 dias representaram 1,98% da carteira de crédito total do banco; a média nacional é de 3%.

Financiamento imobiliário sobe 87%
A carteira de crédito ampliada do Banco do Brasil atingiu R$ 692,9 bilhões em dezembro, crescimento de 19,3% em 12 meses e 6,2% em relação ao trimestre anterior.

Em 2013, o financiamento imobiliário teve alta de 87,2%, com saldo de R$ 24,1 bilhões. O financiamento imobiliário às empresas cresceu 122,6%, atingindo saldo de R$ 5,9 bilhões e o financiamento às pessoas físicas cresceu 78,0% no mesmo período, com saldo de R$ 18,2 bilhões.

Em relação ao volume contratado no trimestre, as pessoas físicas responderam por R$ 3,2 bilhões enquanto as empresas representaram R$ 2,5 bilhões.

Crédito ao agronegócio chega a R$ 144 bi
Em 2013, o crédito ao agronegócio subiu 34,5% (R$ 144,8 bilhões). O BB ampliou a liderança no segmento, atingindo 66,1% da participação no mercado. Destaques para as operações de crédito agroindustrial, que atingiram saldo de R$ 34,6 bilhões, evolução de 60,9% em 12 meses.

Na safra 2013/2014, os desembolsos efetuados já somam R$ 42,3 bilhões e são 27,2% superiores se comparados ao mesmo período da safra anterior. A agricultura empresarial representou desembolsos de R$ 34,1 bilhões, e a agricultura familiar, R$ 8,3 bilhões.

Crédito às MPEs sobe 12%
O crédito a empresas subiu 19,5% (R$ 323,2 bilhões). As operações de crédito para micro e pequenas empresas (MPE) apresentaram crescimento de 12,3% em 12 meses. A principal evolução foi observada nas operações de investimento, que registraram evolução de 25,2% no mesmo período.

Lucro em alta no Itaú e no Bradesco; calotes em queda
A redução dos calotes no quarto trimestre e menores despesas com provisões para perdas com calotes ajudaram os resultados dos bancos privados.

Na semana passada, o Itaú Unibanco anunciou lucro líquido de R$ 15,695 bilhões em 2013, alta de 15,5% em relação ao obtido em 2012 (R$ 13,594 bilhões).

Só no quarto trimestre, o lucro líquido do banco foi de R$ 4,646 bilhões. O resultado recorde para o período foi alcançado graças à redução da inadimplência, aumento de receitas e expansão maior que a estimada da carteira de crédito.

O Bradesco divulgou lucro líquido de R$ 12,011 bilhões em 2013. O valor é 5,5% maior que o registrado em 2012 (R$ 11,381 bilhões), e bate novo recorde.

Já o lucro do Santander Brasil caiu 9,7% em 2013, para R$ 5,7 bilhões. Em 2012, o banco já tinha registrado queda de 5% no lucro em relação ao ano anterior, com lucro líquido de R$ 6,329 bilhões.
 

UOL 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ação contra as demissões por retaliação no BB será julgada no dia 7 de março

Histórico da atuação do Sindicato contra as demissões e descomissionamentos

No dia 19 de março de 2013, o Sindicato dos Bancários de Brasília, após receber e orientar seis bancários  demitidos sem justa causa no Banco do Brasil,   protocolou no Ministério Público do Trabalho (MPT) denúncia contra esses desligamentos unilaterais praticados pela instituição. As investigações da entidade sindical sobre as demissões apontavam que o Banco do Brasil utilizou da demissão sem justa causa para retaliar os bancários, já que eles haviam ingressado com processos trabalhistas, reivindicando o pagamento de horas extras. A instituição financeira também buscava usar essas demissões como “exemplo”, inibindo o ingresso de novas ações trabalhistas por parte dos  funcionários da ativa.

A atuação do Ministério Público

No MPT, a denúncia foi distribuída para o procurador Adélio Justino Lucas. Denúncias de descomissionamentos sem justo motivo e perseguição aos grevistas já haviam sido protocoladas no Ministério Público, e estavam sob responsabilidade de outro procurador, que as remeteu ao procurador Adélio, já que este estava de posse da denúncia feita pelo Sindicato contra as demissões.
O MPT então convocou o Sindicato dos Bancários de Brasília, autor da denúncia contra as demissões, para audiência, que ocorreu no dia 16 de abril do ano passado. Na ocasião, o Sindicato relatou sobre as investigações que havia feito, todas as providências que estavam sendo tomadas contra os abusos. O Sindicato, nessa audiência, reforçou a denúncia protocolada e propôs ao MPT que convocasse os diretores que tinham assento no comitê que decidia pelas demissões.
Dessa forma, o procurador Adélio Justino convocou e ouviu em audiência os diretores Carlos Netto e Carlos Neri. Tais eventos, que constam como documentos importantes na ação civil pública movida contra as demissões, tiveram a presença do Sindicato e contribuíram para formação da convicção do procurador sobre a denúncia protocolada contra as demissões.
O Banco do Brasil tentou inibir a atuação do MPT ao protocolar denúncia no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMPT), alegando que o procurador havia humilhado os diretores da instituição financeira. O Sindicato, ao saber do ataque, protocolou ofício junto ao CNMPT desmentindo tal denúncia e defendendo a lisura da atuação do Procurador.

MPT ingressa com Ação Civil Pública. Sindicato participa como assistente processual                 

Concluída a fase investigatória, o MPT ingressou com ação civil pública, que busca reverter as demissões sem justa causa, alegando que tais desligamentos foram motivados na tentativa de impedir o acesso à justiça. Nessa ação, de número 846-50.2013.5.10.0004, o Sindicato dos Bancários de Brasília pleiteou e foi aceito como assistente do MPT.
A participação dos representantes do Sindicato foi fundamental na audiência de instrução, seja questionando os réus e vítimas com perguntas imprescindíveis para formação da convicção do juiz acerca do pleito dos trabalhadores, seja indicando testemunhas que, com seus depoimentos, contribuíram para a formação da prova de que a instituição financeira demitiu injustamente, para impedir o acesso dos trabalhadores à justiça.
O Sindicato participou ativamente em todas as etapas do processo até o momento, tendo apresentado réplica aos argumentos do BB e de seus diretores, atuando nas audiências, somando-se ao MPT na busca do esclarecimento da verdade, formulando perguntas aos depoentes, apresentando requerimentos e impugnações, enfim, praticando os atos necessários ao bom andamento dos trabalhos.

Próximos passos

Ao final da fase de instrução, o magistrado que está à frente do caso determinou os prazos para razões finais e julgamento da ação civil pública.

Prazo para entrega das razões finais do sindicato: 07 de fevereiro de 2014.
Prazo para razões finais do réu: 24 de fevereiro de 2014.
Julgamento: 07 de março de 2014.

Nas razões finais, as partes se dirigem ao juiz pela última vez antes do julgamento, para destacar aspectos que surgiram durante a fase probatória e reforçar os fundamentos do pedido, devendo ser formuladas com o máximo de cuidado e estratégia.
“O Sindicato tem  forte atuação na defesa dos trabalhadores, inclusive auxiliando o Ministério Público em outras ações, como foi o caso de uma ação movida pela entidade, cuja decisão serviu de fundamento para o julgamento favorável da ação que reconheceu o direito de se associar à Previ e Cassi aos incorporados do BB. Assim, o Sindicato continuará atuando na luta pelos direitos dos trabalhadores”, destaca Wescly Queiroz, secretário de Assuntos Jurídicos do Sindicato.

Da Redação

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Argumentos para continuar protestando contra a Copa do Mundo no Brasil

Após a primeira grande manifestação do ano contra a Copa do Mundo no Brasil, ganhou corpo na internet uma campanha orquestrada para desqualificar os que criticam a realização do megaevento

por Comitê Popular da Copa de São Paulo — publicado 04/02/2014 05:56, última modificação 04/02/2014 15:21

Desde 25 de janeiro, após a primeira grande manifestação do ano contra a Copa do Mundo no Brasil, ganhou corpo na internet uma campanha orquestrada para desqualificar os que criticam a realização do megaevento.

Um vocabulário sinistro povoou textos em blogs, sites de notícias e postagens nas redes sociais que se prestaram ao nefasto serviço. Termos como “bandidos”, “fascistas” e até “terroristas” foram usados para classificar manifestantes, em uma flagrante demonstração de má fé e irresponsabilidade. Até a presidenta da República surgiu com uma declaração de que protestar contra a Copa é “ter uma visão pequena do Brasil”.

Houve ainda quem apelasse para o nacionalismo, acusando os que são contra a Copa de serem contra o país. Impossível não lembrar, nesse raciocínio, do governo Médici e o chavão ufanista “Brasil: Ame-o ou Deixe-o”, empregado a quatro cantos durante um dos períodos mais repressivos da Ditadura.

No entanto, a estratégia de desqualificar manifestantes e manifestações tem pernas curtas. Tudo porque, infelizmente, os legados negativos da Copa são gritantes demais para serem apagados, e se apresentam como quase que uma inesgotável fonte para mais protestos.

Aos que não os veem (ou não querem ver), porém, gostaríamos de abrir os olhos.

A Copa das Remoções

A Ancop (Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa) estimou que 250 mil pessoas foram ou serão removidas de suas casas no Brasil, em razão de obras justificadas pela realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Há dificuldade em encontrar o número exato de pessoas afetadas pelas remoções, pois o poder público das cidades-sede frequentemente se nega ou diz não ter informações sobre os despejos.

O dossiê “Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil”, produzido pela Ancop, aponta que:

“As estratégias utilizadas uniformemente em todo o território nacional se iniciam quase sempre pela produção sistemática da desinformação, que se alimenta de notícias truncadas ou falsas, a que se somam propaganda enganosa e boatos. Em seguida, começam a aparecer as ameaças. Caso se manifeste alguma resistência, mesmo que desorganizada, advém o recrudescimento da pressão política e psicológica. Ato final: a retirada dos serviços públicos e a remoção violenta”.

As Nações Unidas, em sua revisão periódica universal de 2012, também questionaram a violação de direitos humanos na preparação da Copa de 2014, sobretudo no que diz respeito aos despejos forçados.

Portanto, em nome da Copa do Mundo, graves violações de direitos humanos foram e estão sendo cometidas. Comunidades inteiras foram e estão sendo riscadas do mapa, desorganizando a vida de milhares de pessoas, destruindo laços comunitários de décadas e criando traumas psicológicos permanentes. Tudo no decorrer de processos marcados pela verticalidade, truculência e falta de transparência do poder público.

A Copa dos Elefantes Brancos

De acordo com a ONG “Contas Abertas”, pelo menos quatro dos 12 estádios construídos e/ou reformados para a Copa vão se transformar em elefantes brancos – isto é, obras caras, vultosas, mas subutilizáveis.

Os estádios de Brasília, Cuiabá, Manaus e Natal não deverão sair por menos que 2,8 bilhões de reais no total. Parte da verba será financiada via BNDES, que tem na sua composição verbas oriundas do Tesouro Nacional e do Fundo de Amparo ao Trabalhador – públicas, portanto. Outra parte será composta diretamente por dinheiro público, através de aporte dos governos estaduais. Em todas essas cidades, os estádios serão grandes (e caros) demais para locais com histórico de partidas de futebol com públicos pequenos.

Por exemplo, o estádio Mané Garrincha, em Brasília, tem capacidade máxima para 71 mil pessoas. A contradição salta aos olhos quando olhamos para o público do primeiro jogo da final do campeonato brasiliense do ano passado: parcos 1.956 pagantes. O mesmo cenário se repete nas outras três cidades mencionadas.

Chegamos ao ponto de em Manaus, o Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário, ligado ao Tribunal de Justiça do Amazonas, aventar a hipótese de transformar o recém-construído estádio em um ‘presídio’ temporário.

Desta forma, não é difícil concluir que, passada a Copa, todos os quatro estádios deverão ficar vazios – fato que se configura em um bilionário descaso com o dinheiro público.

A Copa da Exploração Sexual

Em um país onde reina a pobreza e a cultura do machismo, a realização da Copa do Mundo, com a consequente chegada de milhares de turistas, só fará aquecer ainda mais as redes de aliciamento que se beneficiam do mercado da exploração sexual .

Um estudo da fundação francesa Scelles comprova que as grandes competições internacionais permitem que as redes criminosas “aumentem a oferta” de pessoas que são prostituídas. Na África do Sul, por exemplo, o número estimado aumentou de 100 para 140 mil, durante o megaevento de 2010.

O Brasil possui um dos maiores níveis de exploração sexual infanto-juvenil do mundo. De acordo com o Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, uma rede de organizações não-governamentais, estima-se que existam 500 mil crianças e adolescentes na indústria do sexo no Brasil (dados de 2012). Este índice tende a crescer ainda mais com a Copa de 2014. Em março de 2012, foi denunciado o site “Garota Copa Pantanal 2014″ que publicava vídeos e fotos de garotas menores de 18 anos em posições sensuais e com camisetas promocionais alusivas ao torneio de futebol.

Mas tais impactos começaram antes mesmo dos primeiros turistas chegarem para os jogos. Há denúncias do aumento de exploração sexual, incluindo crianças e adolescentes, nos arredores dos estádios e das grandes obras urbanas da Copa, divulgadas recentemente no jornal britânico “Mirror”, que revelou que garotas de 11 a 14 anos estão se prostituindo na região do Itaquerão, Zona Leste de São Paulo.

Apesar da exploração sexual ter sido elencada entre as preocupações das autoridades brasileiras com a realização do megaevento, pouco foi efetivado em termos de políticas públicas preventivas ou de combate ao tráfico de mulheres até o momento.

No estado da Bahia, o terceiro em número de denúncias de violência sexual, apenas em dezembro de 2013 se divulgou uma campanha com o título “Fim da Prostituição e do Tráfico Infantil”. Além disso, as poucas campanhas realizadas até agora são relacionadas ao público infantil, campanhas estas que são mais aceitas pela sociedade e provocam adesão no combate.

Todavia, campanhas relacionadas a públicos estigmatizados, como mulheres e travestis, não recebem a devida ênfase, omitindo-se assim o fato de que se tratam de vítimas das condições sociais que as levaram à prostituição. Isso nos remete ao histórico de violação de direitos que perpassa até mesmo os planejamentos das políticas públicas.

Ativistas e organizações que combatem a exploração de pessoas indicam que o assunto não é prioridade para os governos, que continuam reprimindo as trabalhadoras e trabalhadores do ramo ao invés de desenvolver políticas públicas de prevenção à exploração sexual, dando-lhes outras condições e alternativas de sobrevivência. Políticas deveriam ter sido intensificadas logo que o país foi eleito sede da Copa do Mundo, o que não ocorreu.

É valido ressaltar que campanhas de combate à exploração sexual, até então, pouco tem se relacionado ao nome da Fifa. Será que esse é mais um requisito para trazer o torneio ao Brasil? Assim como é exigido a outras corporações, a Fifa também deveria cumprir leis de responsabilidade social, como, por exemplo, campanhas e ações na área do combate à exploração sexual, dados os inúmeros alertas e fatos que comprovam que o Mundial intensifica esse sombrio mercado.

A Copa do Fim da Soberania

Para poder receber a Copa do Mundo, o governo brasileiro resolveu abrir mão da soberania do país, que em tese estaria garantida no artigo 1º da Constituição Federal. Fez isso ao oferecer, ao longo do tempo, uma série de garantias à Fifa nas quais se compromete em acatar todas as demandas impostas pela entidade.

Dessa forma, em 2012, foi sancionada a Lei Geral da Copa, que flexibiliza a legislação nacional e cria zonas de exceção nas cidades-sede.

A lei dá à Fifa a prerrogativa de estabelecer em torno dos eventos esportivos e da Fan Fest uma área com um raio de até 2 quilômetros onde somente patrocinadores oficiais poderão comercializar produtos. Estabelecimentos comerciais regulares não seriam impedidos de abrir as portas, mas trabalhadores ambulantes – que em São Paulo totalizam cerca de 138 mil pessoas – fatalmente serão reprimidos e impedidos de trabalhar.

A Fifa conseguiu ainda fazer com que o Estado brasileiro criasse novas tipificações penais. A Lei Geral da Copa prevê pena de três meses a um ano para os que usarem de forma indevida (isto é, com fins comerciais) símbolos relacionados ao evento, nacionais e culturais. Isto significa que palavras como “Mundial”, “Copa”, “Brasil”, “Canarinho”, entre tantos outros, ficam nas mãos da Fifa e de suas empresas parceiras para exploração comercial exclusiva.

Esses novos crimes ainda serão julgados por tribunais de exceção a serem instalados no entorno dos estádios. Nestes locais, o julgamento será conduzido de forma rápida e com penas mais duras, prejudicando o direito à ampla defesa – um dos direitos penais mais básicos de qualquer democracia .

Por fim, é preciso ainda lembrar que a Lei Geral da Copa concede à Fifa e a suas empresas parceiras isenção total de todos os impostos brasileiros, seja na esfera municipal, estadual ou federal. Estimativas do próprio governo brasileiro apontam uma economia à entidade de 1 bilhão de reais em razão da desoneração fiscal].

Não à toa, a Copa do Mundo no Brasil deve ser a mais lucrativa da história da Fifa. Segundo a própria entidade, que em tese não tem fins lucrativos, o megaevento deve render 10 bilhões de reais aos seus cofres.

A Copa da Elitização

Para poder receber a Copa do Mundo, governos e clubes foram obrigados a construir e reformar estádios obedecendo a um “padrão Fifa de qualidade”. Isto significou que estádios deixam de ser “estádios” e passam a ser chamados de “arenas”, onde tudo é de última geração: do telão que mostra os lances do jogo ao estofado das cadeiras.

A princípio tratam-se de novidades positivas, mas que só resistem ao nível da aparência. Na prática, há um trágico efeito colateral em curso: os custos das novas arenas são embutidos no preço dos ingressos, que ficam mais caros, gerando uma pérfida elitização do futebol.

A consultoria BDO divulgou um estudo que abrangeu as nove primeiras rodadas do Brasileirão de 2013. Em um primeiro momento, foi analisado o preço dos ingressos para partidas realizadas nas novas arenas reformadas para a Copa das Confederações. Em seguida, verificou-se o preço dos ingressos para partidas realizadas nos estádios antigos. O resultado apontou que os ingressos nas novas arenas foram em média 119% mais caros que os nos estádios antigos.

Com as arenas, espaços tradicionais da torcida brasileira, como as gerais e as arquibancadas, são extintos ou reduzidos. Em seu lugar se instalam lojas e estabelecimentos comerciais. Surge assim o “torcedor-consumidor”, caracterizado pelo pouco envolvimento na política e dia-a-dia de seu time, e que vai ao estádio assistir a uma partida assim como vai ao cinema de um shopping center.

Nesse processo que veste o manto do capital imobiliário e especulativo, parcelas mais pobres da sociedade são excluídas e impossibilitadas de acompanhar in loco jogos do esporte mais popular do país.

A Copa da Repressão

Mais preocupante que a campanha orquestrada para desqualificar os que criticam a Copa é o movimento orquestrado pelo Estado brasileiro para expandir o aparato repressivo visando sufocar protestos durante o megaevento – e muito provavelmente, depois. Este movimento tem atuado em duas frentes: uma legislativa e outra ostensiva (policial e militar).

O projeto de lei 728/2011, de autoria do senador Marcelo Crivella (PRB), pretende tipificar o crime de terrorismo no Brasil. Atualmente em trâmite no Senado, caso seja aprovado, este projeto criará um subterfúgio jurídico para que tribunais possam enquadrar movimentos sociais e manifestantes que supostamente promovam a ação direta como recurso durante manifestações.

Já na frente ostensiva, o cenário é ainda mais chocante. O governo federal já gastou quase 50 milhões de reais em armamento menos letal, que inclui granadas de todos os tipos, armas de choque elétrico e balas de borracha. Uma tropa de choque especial com 10 mil homens também foi criada para atuar nacionalmente nas cidades-sede da Copa.

Em São Paulo, a Polícia Militar avisou que vai adquirir caminhões que lançam jato d’água para conter manifestantes. Trata-se dos mesmos caminhões que foram largamente usados para reprimir manifestações populares na Turquia e no Chile.

Um batalhão especial, formado por 413 policiais militares, também foi criado pelo governo paulista com a função de fazer o “controle de distúrbios civis e antiterrorismo”.

Mas assombroso mesmo é o manual publicado pelo Ministério da Defesa em dezembro último, intitulado “Garantia da Lei e da Ordem”, que atualiza orientações para a atuação das Forças Armadas no país.

No texto, “movimentos ou organizações” são classificados como “forças oponentes”, assim como qualquer pessoa ou organização que esteja obstruindo vias de acesso, “provocando ou instigando ações radicais e violentas”.

Na lista de principais ameaças estão “bloqueios de vias públicas de circulação”, “depredação do patrimônio público e privado”, “paralisação de atividades produtivas” e “invasão de propriedades e instalações rurais ou urbanas, públicas ou privadas”.

As Forças Armadas devem estar nas ruas durante a realização Copa do Mundo, assim como estiveram durante a Copa das Confederações.

Que “Copa das Copas” é essa que precisa do exército nas ruas para acontecer?

A Copa dos Protestos

Diante de tantas arbitrariedades, violações de direitos humanos, processos de exclusão social, apropriação do patrimônio público, entre outras várias mazelas, protestar contra a realização da Copa da Fifa no Brasil não só é legítimo – é também um dever. Portanto, não se deixe intimidar por discursos embevecidos por um patriotismo cego e anacrônico ou ainda por artigos escritos por gente cujo verdadeiro compromisso é com determinada agremiação política ou com o próprio bolso.

Enquanto políticos e articulistas desqualificam, a atuação do aparato militar contra manifestações recrudesce, fato que ficou claro no protesto do último dia 25 de janeiro, quando o manifestante Fabrício Proteus foi baleado quase que mortalmente por policiais militares. O episódio – bastante rotineiro nas periferias do Brasil, diga-se – se configura como um eloquente alerta para futuras manifestações.

Mas nem a violência policial nem o discurso da desqualificação devem nos impedir de desfrutarmos do direito constitucional de protestar, sobretudo contra uma Copa imersa em podridão como a que se avizinha.

Então, que em 2014 façamos das ruas e avenidas das cidades a verdadeira arquibancada do país!


*O Comitê Popular da Copa de São Paulo, criado em 2011, é um grupo de articulação contra os impactos e as violações de direitos humanos da Copa do Mundo de 2014 em SP. Este texto foi publicado originalmente no site do Comitê, onde mais informações podem ser encontradas: comitepopularsp.wordpress.com/